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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Contratados, seguidores e aliados

 
Nodwick, por Aaron Williams

 
Um dos aspectos mais interessantes, na minha opinião, do RPG tradicional e que se perdeu com edições mais recentes é a presença dos diversos NPCs que participam da aventura junto aos personagens dos jogadores. 

Na primeira edição de Advanced Dungeons & Dragons, montar e organizar uma expedição para chegar até seu destino era parte integral da aventura, e isso fica muito claro em diversos módulos clássicos, como S4 - The Lost Caverns of Tsojcanth ou I4 - Dwellers of the Forbidden City, que incentivam os jogadores a isso. 
 
Montar uma expedição era, também, um modo de fazer com que os jogadores gastassem as moedas de outro adquiridas em aventuras anteriores. Além de adquirir equipamentos, carroças, animais de tração e montaria, muitos grupos também contratavam escribas, cozinheiros, cavalariços, carregadores e lacaios. Não raro, os aliados e seguidores dos PCs também participavam da aventura, principalmente se o grupo não tivesse um número suficiente de personagens de jogadores para completar o módulo. 

Cada um desses três tipos de NPCs tem sua função específica nas aventuras, e podem ser bastante úteis quando utilizados pelos jogadores. 

Contratados (hirelings)
Estes NPCs, como o nome dizem, são contratados pelos personagens para desempenharem várias funções nas aventuras. Eles normalmente são pagos por dia ou por período específico combinado previamente, e seu preço varia de acordo com a função (os valores exatos normalmente estão disponíveis no Dungeon Master Guide). 

Contratados incluem cozinheiros, cavalariços e estribeiros para cuidar dos animais de montaria e tração, carpinteiros para consertar as carroças, ferreiros e armeiros para reparar as armas e armaduras, lacaios para montar e desmontar acampamento e fazer o trabalho pesado, pajens e escudeiros para os nobres e cavaleiros, escribas, menestréis, cartógrafos e carregadores, dentre muitos outros. Normalmente os contratados são encontrados em qualquer burgo ou cidade de tamanho razoável, frequentando e oferecendo seus serviços nos mesmos locais que os aventureiros. 
 
É importante notar que esses serviçais não são combatentes. Dificilmente um deles sabe sequer manejar uma arma, e não duraria um minuto em combate, mesmo contra um simples goblin. 

Justamente por isso muitos grupos de aventureiros também contratam guardas ou mercenários para guardar o acampamento e defendê-lo contra ataques. Esses combatentes normalmente são guerreiros de primeiro ou segundo nível, liderados por um chefe ou sargento. O preço varia muito conforme sua experiência, equipamento e número. 
 
Mais raramente um grupo pode contratar um NPC aventureiro para acompanhá-los durante uma aventura específica. Por exemplo, o grupo não possui um ladino ou clérigo, e deseja complementar seu elenco com um NPC de alguma classe de personagem específica. Neste caso, o NPC trabalha por uma parte dos lucros, negociada previamente. Em muitos casos, este tipo de contratado pode tornar-se um importante aliado do grupo.

Seguidores (followers)
Estes NPCs associam-se aos personagens de jogador por lealdade ou atraídos pela sua fama, embora a maioria deles também recebe pagamento. O tipo e número de seguidores, e quando eles surgem, são determinados conforme a classe de personagem.
 
Por exemplo, guerreiros atraem uma tropa de guerreiros e uma unidade de elite quando atingem o 9o nível de personagem. Rangers e ladinos atraem um número limitado de seguidores durante sua carreira. Um mago pode obter um ou dois aprendizes após tornar-se conhecido.
 
Em alguns casos, seguidores podem ser até mesmo animais, como ocorre com os rangers ou com as montarias especiais dos paladinos. 

Seguidores cumprem uma série de funções. Normalmente eles administram e defendem os castelos, guildas e torres que os personagens eventualmente obtêm ou constroem em suas carreiras como aventureiros, mas alguns deles podem acompanhá-los em aventuras, e até mesmo se tornar aliados valorosos. 

Aliados (henchmen)
Como o nome diz, estes NPCs não são meramente serviçais contratados ou seguidores. Ainda que possam iniciar sua relação com os PCs através de um contrato ou devido à sua reputação, acima de tudo os aliados são companheiros e amigos leais dos personagens dos jogadores que os acompanham em suas aventuras e empreitadas.

Aliados sempre possuem uma classe de personagem (e, portanto, recebem uma parte da experiência da aventura e sobem de nível) e partilham dos espólios das aventuras com os PCs. Cada aliado fica sempre vinculado não ao grupo, mas a um PC em particular - e o Carisma do personagem determina o número máximo de aliados que aquele PC poderá ter em sua vida. 

Como dito acima, muitos podem iniciar sua relação com os PCs como contratados ou seguidores, mas conforme os laços entre os personagens vão se fortalecendo, ele eventualmente se tornará um seguidor, e cabe ao DM decidir exatamente quando - e se - isso ocorre. 

E ao contrário de outros NPCs, o aliado é controlado e interpretado em conjunto pelo jogador e pelo mestre - este último, porém, detém a decisão final de suas ações e atitudes.
 
Aliados esperam não apenas uma recompensa monetária justa e devida, o que inclui também itens mágicos e poções compartilhadas pelos membros do grupo, mas também o PC deve corresponder à sua lealdade e fidelidade. Aliados que são negligenciados, humilhados ou traídos podem até mesmo se tornar terríveis inimigos. 
 
 




 
 
 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Jogadores novos, jogos à moda antiga

 

"Você tem certeza que colocar sua mão aí é uma boa idéia?"

 

Desde o surgimento do movimento OSR ("old-school revival" ou "old-school renaissance", em bom português "renascimento ou retorno de jogos à moda antiga") em 2008, mais e mais grupos de RPG têm buscado conhecer jogos antigos ou que emulam "a maneira de jogar RPG à moda antiga". 

Não vou entrar em detalhes agora sobre o que caracteriza um RPG à moda antiga, pois já fiz isso em uma postagem anterior.

O intenção desta postagem é outra: oferecer a jogadores que não estão acostumados aos paradigmas dos jogos "das antigas" algumas dicas de sobrevivência, bem como ressaltar as diferenças entre jogos que seguem a tradição OSR e os que adotam designs mais modernos.

Seu PC pode fazer (quase) qualquer coisa. Uma das coisas que notei com jogadores que começaram a jogar D&D a partir da 3a edição, ou que começaram no hobby com jogos simulacionistas (como GURPS), nos quais tudo deve estar especificado e quantificado na planilha, é que muitos ficam presos apenas ao que está descrito na planilha. 

Em um RPG o único limite de um personagem é a imaginação do jogador. Ele não precisa ter uma perícia ou talento específico para saltar sobre uma fenda no chão, para imobilizar um oponente ou empunhar uma espada em combate. Essas habilidades podem facilitar a ação, mas de forma alguma vão limitá-la. 

Por sua vez, um bom Mestre dificilmente vai dizer a um jogador "seu personagem não pode fazer isso". Pelo contrário, ele vai analisar as probabilidades de sucesso da ação, aplicar os modificadores adequados e pedir ao jogador que faça um teste ou descreva sua ação em detalhes. No máximo, ele vai aconselhar o jogador, dizendo que "é uma ação bastante arriscada", "que a chance de sucesso é ínfima" ou que "é uma manobra suicida". 

A única coisa que realmente um PC não consegue fazer é duplicar certas habilidades - lançar uma magia se não for um mago, lutar bem com uma espada sem treinamento adequado ou sair voando se não tiver esse super-poder.

 

Seu personagem não é um super-herói invencível. Pelo menos não no início da campanha. Ao contrário de jogos modernos, em que personagens iniciantes são quase indestrutíveis, possuem pontos de vida iniciais na casa dos dois dígitos (pelo menos) e têm listas imensas de poderes e habilidades especiais, nos jogos à moda antiga a sobrevivência dos personagens iniciais não se limita às habilidades e perícias elencadas em suas planilhas, mas também dependem das habilidades dos seus jogadores. Rapidez de raciocínio, adaptabilidade e criatividade são essenciais para que um PC sobreviva além das primeiras sessões de jogo.

Tática, estratégia e trabalho de equipe também são essenciais. Ao contrário das edições de D&D publicadas após o ano 2000, em que as características e peculiaridades de cada classe ficaram menos claras, no AD&D e no D&D Clássico as classes são definidas praticamente como arquétipos da literatura de fantasia, suas habilidades se complementam e compensam as limitações dos demais personagens. 

Aliás, vale ressaltar: é provável que seu personagem morra cedo. Jogos à moda antiga tendem a ser mais letais, simplesmente porque, como disse acima, inicialmente os PCs tendem a ser mais fracos se comparados a jogos modernos. 

 

Saiba a hora certa de lutar e de fugir. Ao contrário do que ocorre nos jogos modernos, encontros, armadilhas e combates não são necessariamente equilibrados com o nível dos personagens. Nem sempre será possível sair de uma situação adversa através de combate, e muitas vezes as habilidades dos personagens não serão suficientes para superar um desafio ou obstáculo. 

Além de empregar suas habilidades pessoais e o trabalho de equipe, os jogadores devem saber que, em alguns casos, será necessário empregar uma retirada estratégica. 


Controle seus recursos e suprimentos com sabedoria. O gerenciamento dos recursos é parte essencial dos jogos à moda antiga. Preste atenção nas munições, rações, poções e suprimentos do grupo. Não esqueça de fazer a manutenção diária dos equipamentos dos PCs em seu tempo livre (armaduras e armas, sejam espadas ou rifles automáticos). Esteja atento às regras de recuperação de pontos de vida ou vitalidade dos personagens, e lembre-se que não há "healing surges" e a recuperação natural de hit points é muito mais lenta e leva vários dias; se estiver com pressa, use magia ou poções.

Isso inclui, também, as magias dos magos, feiticeiros e clérigos. Não me refiro apenas ao sistema utilizado no jogo (memorização, preparação de magia, pontos de mana, etc.), mas sim quais magias preparar. Um clérigo que utiliza unicamente magias de cura em detrimento de outras magias importantes de seu arsenal místico está desperdiçando todo o potencial da classe de personagem.


Faça uso de aliados. Muitas aventuras antigas descrevem um número mínimo bastante alto de personagens. Dwellers of the Forbidden City recomenda de 6 a 8 personagens, e The Isle of Dread sugere um grupo de 6 a 10 personagens. 

Isso acontece por vários motivos. O principal é permitir seu uso em torneios e convenções, onde é muito mais fácil reunir um grupo grande de jogadores. Mas em grupos menores nem sempre havia tantos jogadores disponíveis. A solução era contratar ou procurar NPCs que complementassem o grupo, os aliados (henchmen and allies, no original). Esses personagens tinham seu controle compartilhado entre o Mestre e um dos jogadores, e não apenas complementavam as habilidades faltantes no grupo e permitiam uma maior variedade de estratégias, como também serviam como reservas, caso um dos PCs morresse durante a aventura.

Muitos jogadores também viam as aventuras como verdadeiras expedições, e além dos aliados traziam consigo grupos de serviçais para realizar uma série de tarefas triviais: escudeiros, cavalariços, cozinheiros, carregadores, pajens, armeiros, condutores de carroça, lacaios, médicos, etc. Porém estes NPCs jamais entravam em combate ou participavam diretamente da aventura, sendo contratados apenas para prestar seus serviços aos personagens. 

Além dos aliados e serviçais, era comum fazer uso dos serviços de especialistas, que incluíam normalmente magos, sábios e contatos, cujos serviços não eram baratos. 

Personagens com habilidades mágicas (magos e clérigos) são normalmente contratados para identificar ou fabricar objetos mágicos, curar os personagens, remover maldições, fabricar / vender poções, ou ensinar magias aos PCs. Não raro, em troca de seus préstimos eles exigiam somas vultosas ou que o grupo realizasse alguma missão.

Sábios são consultados sempre que os PCs têm dúvida em alguma área específica de conhecimento. "Como fechar o portal mágico do Castelo Negro?", "Quem foi o primeiro Rei de Teléria?", "Qual é a fraqueza principal de um tana'ri?", "O senhor sabe traduzir Neterílio antigo?" Nem todo sábio entende de tudo, e seus campos de atuação tendem a ser bastante específicos, como História Antiga, Idiomas Arcaicos, Estudos dos Planos de Existência, etc.

Já os contatos, mais comuns em jogos com cenários de ficção-científica, servem para fornecer informações essenciais aos PCs, desde "onde podemos conseguir uma nave veloz para a Orla Exterior?" até "quais gangues atuam no setor controlado pela Aztechnology em Denver?"


A árvore genealógica do seu PC não me interessa. Como mestre, hoje em dia eu simplesmente detesto históricos de personagens longos e elaborados. Quanto mais simples, melhor - até mesmo porque a chance de seu PC iniciante ser morto pela flecha de um hobgoblin ou dissolvido por um green slime são grandes, e aí todo seu esforço será desperdiçado. Mantenha seu histórico simples. Um parágrafo de algumas linhas com antecedentes simples, motivação e informações básicas sobre a família do PC são mais que suficientes. 


 


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Paradigmas da Velha Escola

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Em minha primeira postagem neste blog, eu falei sobre o movimento da Velha Escola de RPG e de como vários jogos em estilo rétro – principalmente aqueles inspirados no D&D original – vêm ganhando popularidade.
 
Falei, também, que não me considero um jogador da Velha Escola pois não concordo com muitos dos paradigmas e convenções desse estilo de jogo. Mas quais seriam eles? Em linhas gerais, as características dos jogos da Velha Escola são: 
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Sistemas de regras bastante simples. As regras funcionam mais como diretrizes ou linhas gerais do que regras mo sentido estrito da palavra, o que permite um alto nível de personalização do sistema. No entanto, às vezes pecam pela simplicidade excessiva (o que pode ser uma desgraça nas mãos de um DM inexperiente). Por mais contraditório que possa parecer, devido às origens do RPG nos war games, as regras muitas vezes enfatizam o aspecto estratégico do jogo, como utilização de miniaturas e mapeamento do cenário, o que pode levar a uma sensação de “jogo de tabuleiro”.
 
Forte influência da literatura nas aventuras e criação dos cenários. Principalmente das obras de autores como Robert E. Howard, Michael Moorcock, Jack Vance, Fritz Leiber, Clark Ashton Smith, Poul Anderson, Lin Carter e L. Sprague de Camp, bem como das pulp magazines publicadas de 1920 a 1950). 
 
Motivação dos personagens dos jogadores. Assim como os protagonistas das obras de Espada e Feitiçaria e Fantasia Heróica que inspiraram os criadores do hobby, os PCs se tornam aventureiros não somente porquê desejam impedir que o Senhor das Trevas conquiste seu reino, mas também para explorar o mundo, ou então adquirir fama, dinheiro e glória. E mesmo os personagens cuja motivação principal é financeira acabam fazendo a coisa certa no final das contas.
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Preferência por cenários fechados e independentes de influências externas. A principal manifestação desse aspecto é a onipresença de masmorras e seus derivados; campanhas inteiras podem ser desenvolvidas baseando-se em uma única mega-masmorra (como The Temple of Elemental Evil, Realms of Horror ou The Caverns of Thracia, por exemplo).
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Não há oponentes, antagonistas ou tramas em nível continental. Assim como o enredo, as ameaças também ocorrem localmente. A grande vantagem é que isso elimina toda e qualquer trama universal (metaplot) da campanha.

No próximo artigo, irei comentar algumas dessas características sob uma ótica mais pessoal. 
 
Até a próxima, Ricardo