domingo, 16 de agosto de 2020

"Storygames" não são RPGs (e vice-versa)

 

Se você joga RPGs já deve ter ouvido falar de uma suposta categoria de role-playing games chamada de "storygames" (STGs). Jogos como Fiasco, Ten Candles, Follow, Wushu, Dread e Shock, entre outros, são exemplos de STGs.

Muitos vêem estes jogos como "uma nova forma de jogar RPG" que oferece aos jogadores ferramentas de controle narrativo. Alguns mais pedantes afirmam que storygames seriam a evolução dos RPGs. 

Mas nenhuma dessas afirmativas é verdadeira, simplesmente porque storygames não são RPGs.

Claro, há muitas semelhanças entre os dois tipos de jogos: você cria personagens que embarcam em uma aventura, e há regras e mecânicas. Alguns storygames possuem até mesmo um mestre do jogo e se vendem como role-playing games. Mas as semelhanças acabam aí. 

Role-playing games são definidos como um conjunto de mecânicas que permitem a interpretação (role-playing) de um personagem virtual associadas a um determinado mundo ou cenário também virtual. 

Ao interpretar seu personagem o jogador toma decisões como se fosse aquele personagem, portanto as regras e mecânicas de jogo devem possibilitar isso. Se as mecânicas e regras exigem que o jogador tome decisões que não são associadas diretamente às ações e escolhas do personagem, não é um RPG. 

Em outras palavras, se o jogador emprega um sistema de regras dissociado de seu personagem, ele não está interpretando o papel, mas sim fazendo outra coisa.

Aliás, cabe ressaltar, caso isso ainda não tenha ficado claro: interpretar o personagem não significa "fazer teatrinho" na mesa. Aliás, acho isso algo extremamente pedante e irritante. Interpretar um personagem é realizar as ações e escolhas de um personagem virtual em um cenário virtual

Então, resumindo: RPGs são definidos pela associação de regras e cenário de uma maneira que permitam ao jogador tomar decisões, executar as ações e realizar as escolhas de seu personagem.

Já os tais "storygames" são definidos, em essência, pelo emprego de mecânicas e regras de controle narrativo. Trocando em miúdos, as mecânicas servem para determinar quem vai controlar parte da narrativa ou qual será a resolução de determinada parte da história/narrativa. 

Ao contrário dos RPGs, nos storygames o foco das regras não está nas escolhas feitas pelos jogadores in persona de seus personagens, mas sim no controle da história

Para deixar mais claro, vou dar um exemplo: 

Imagine a seguinte cena em uma típica sessão de RPG: Gronk, um estúpido bárbaro nórdico, decide entrar sozinho em uma caverna sombria localizada nos Contrafortes das Montanhas Álgidas. Ao entrar na caverna, uma imensa aranha do gelo desce sorrateiramente do teto e ataca Gronk.

Neste momento, o mestre pergunta ao jogador o que o personagem fará. As decisões do jogador vão determinar as ações do personagem, o curso da ação e o desfecho dessa cena. Os dados (e, portanto, o fator sorte) também tem peso na resolução do encontro, que pode terminar de várias maneiras, conforme as decisões do jogador: Gronk mata a aranha do gelo, Gronk é comido pela aranha do gelo ou simplesmente Gronk sai correndo da caverna.

Num storygame a resolução dessa cena seria completamente diferente, pois  o foco aqui não seria um jogador tomando as decisões e fazendo as escolhas de seu personagem. O foco é única e exclusivamente no controle da narrativa em detrimento do personagem. Os participantes vão, através das regras dissociativas do jogo, "narrar" o que vai acontecer como se estivessem contando uma história e desenvolvendo uma prosa. Aqui, os elementos narrativos assumem o papel que os personagens têm em um RPG, e uma vez que os jogadores não estão interpretando as ações e escolhas dos personagens, não há role-playing.

Para um RPGista isso beira o absurdo, uma vez que as regras dissociativas roubam do jogador seu poder de decisão quando afetam as ações ou comportamento do personagem. Soa tão ridículo como se em uma sessão de RPG o Mestre começasse a ditar as ações dos personagens no lugar dos jogadores.

Portanto, a partir do momento que você tira do jogo seu elemento principal (o role-playing) e o foco dos personagens dos jogadores, ele se torna outra coisa.

Dessa forma, podemos afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que STGs não são RPGs, assim como LARPs não são RPGs e jogos de tabuleiro (por mais temáticos que sejam) também não são RPGs. 





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